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Fui Testemunha de Jeová entre 2008 e 2015. Durante esses anos, vivi intensamente a rotina da organização: reuniões, pregação de casa em casa, leituras, orações, zelo pela moral. Fiz amigos, criei laços fortes, e por muito tempo, acreditei que ali estava a única verdade possível.
Mas com o tempo, comecei a questionar. E não estou falando de “querer pecar” ou de “ficar fraco na fé”. Falo de questionamentos sinceros, baseados na própria Bíblia e na minha consciência: por que certas regras são tão rígidas se não há fundamento bíblico claro? Por que quem pensa diferente é tratado como inimigo? Por que a consciência individual só vale quando serve aos interesses da liderança? Esses questionamentos me levaram a sair. Não por rebeldia. Não por mágoa. Saí porque minha consciência já não podia mais compactuar com aquilo que eu via como incoerência e controle disfarçado de espiritualidade. E aí veio o golpe mais duro: o isolamento. Pessoas com quem eu tinha convivido por anos — que estiveram na minha casa, que chamavam de “irmão” — passaram a fingir que eu não existia. Desviavam o olhar, atravessavam a rua, ignoravam minha presença como se eu tivesse morrido. Essa é a prática ensinada pela liderança: “não se deve nem cumprimentar quem abandonou a fé”. Um tipo de punição social disfarçada de zelo espiritual. Só que, nos últimos tempos, algo curioso tem acontecido: regras que antes eram absolutas estão sendo suavizadas. Agora dizem que você pode falar com ex-Testemunhas se ela demonstrar interesse em voltar. Recentemente, até o ato de fazer um brinde — que antes era considerado “pagão” e condenado — agora é “uma decisão de consciência”. Mas e quem foi expulso, julgado e excluído por questionar essas mesmas coisas antes? E quem perdeu amigos e foi tratado como apóstata por levantar essas dúvidas que hoje viraram “questões secundárias”? Quem vai pedir desculpa por isso? A verdade é que, com o tempo, percebi algo simples: o problema nunca foi a Bíblia — e sim o controle. Controlar o pensamento. Controlar os laços sociais. Controlar a consciência individual. E toda mudança só acontece se for feita de cima para baixo — nunca como resposta à dor de quem questionou com sinceridade. Não escrevo isso por rancor. Escrevo porque sei que tem muita gente passando pelo mesmo. E para dizer que não há nada de errado em seguir sua consciência. Que não é pecado pensar, refletir e discordar. Se você, como eu, um dia foi excluído por pensar, saiba: você não está sozinho. E sua liberdade vale muito mais do que qualquer aceitação baseada em obediência cega. José Gomes
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