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A doutrina nas próprias palavras da Organização Na noite de 2 de abril de 2026, milhões de Testemunhas de Jeová reuniram-se em todo o mundo para a Comemoração anual da morte de Cristo. Em quase todas os Salões do Reino do planeta, o pão e o vinho passaram de mão em mão sem que a esmagadora maioria dos presentes participassem deles, por comer e beber. Apenas uns poucos milhares se serviram desses emblemas. Eram os "ungidos": a classe de 144.000 cristãos que, segundo a doutrina da Sociedade Torre de Vigia, possui esperança celestial e integra o Novo Pacto com Cristo. Esta distinção não é meramente marginal. É a espinha dorsal de toda a eclesiologia e escatologia das Testemunhas de Jeová. A Organização ensina-a abertamente nas suas publicações, todas disponíveis no seu site oficial jw.org. Consideremos o que as próprias fontes dizem. O que a Torre de Vigia ensina sobre os "ungidos" A Sentinela de 1 de Novembro de 1991 define assim a evidência de pertença à classe dos ungidos: O mesmo artigo estabelece a suposta base bíblica que a Organização invoca para esta doutrina, citando 1 João 2:20 e 2 Coríntios 1:21-22: Quanto à origem histórica desta divisão em duas classes de cristãos, a Sentinela de 15 de Agosto de 1996 declara abertamente: E a mesma fonte reconhece algo ainda mais significativo: que a própria congregação cristã do primeiro século era constituída inteiramente por ungidos, tendo a divisão entre as duas classes surgido apenas no século XX: Um estudo da Sentinela de 15 de Janeiro de 2016 reconhece, de forma que deveria ser perturbadora para qualquer membro fiel, que nem todos os que se reclamam ungidos o são de facto: Este último ponto é de uma franqueza desconcertante: a Organização admite que o seu próprio mecanismo de identificação dos "ungidos" — a auto-declaração individual, baseada num "senso dominante» interior — é falível e incontrolável. A Torre de Vigia não consegue verificar quem pertence à classe que ela própria criou. E mais um detalhe importante: a organização, na Sentinela de 1 de Maio de 2007, na secção Perguntas dos Leitores com o título "Quando termina a chamada de cristãos para a esperança celestial?", abandonou a data de 1935 como a data de encerramento para a chamada celestial. Note como o afirmaram: Esta mudança de ensino veio na altura certa. Afinal, o número dos "ungidos" estava a aumentar exponencialmente e não a reduzir, como em décadas anteriores. Nem mesmo o artigo da Sentinela que sugeria que os novos "ungidos" teriam "problemas mentais ou emocionais" abrandou o aumento nos anos subsequentes. Era necessário ajustar o entendimento. A questão que este artigo coloca Mesmo que aceite a doutrina tal como a Torre de Vigia a formula, a questão que se impõe é esta: o Novo Testamento usa alguma vez o título "ungidos" no plural, como designação de uma classe de cristãos? E, inversamente: qual é o título que o NT usa efectivamente para designar a totalidade dos cristãos? Este artigo responde a estas perguntas com rigor lexical e exegético, recorrendo ao vocabulário grego original. E a conclusão é inequívoca: a "classe dos ungidos" é uma construção humana do século XX, elaborada por Joseph Franklin Rutherford, 2º presidente da Sociedade Torre de Vigia, no congresso de Washington de 1935, sem correspondência no vocabulário nem na teologia do Novo Testamento. Uma questão de vocabulário com consequências doutrinárias Quando as Testemunhas de Jeová falam dos seus "144.000 ungidos", estão a usar uma categoria teológica que apresentam como sendo plenamente bíblica. A pergunta que este artigo coloca é simples e cirúrgica: o Novo Testamento usa alguma vez o título "ungidos" no plural, como designação de uma classe de cristãos? A resposta é não. E a análise cuidadosa do vocabulário grego do Novo Testamento (NT) demonstra-o com clareza. É preciso dizer-se que este não é um debate de somenos importância. A doutrina das duas classes de cristãos — os "ungidos" com esperança celestial e a "grande multidão" com esperança terrena — é o pilar central da eclesiologia e da escatologia das Testemunhas de Jeová. Se o fundamento lexical desta doutrina não existe no NT, toda a estrutura colapsa. A designação bíblica real: os "santos" (ἅγιοι) O termo colectivo que o NT usa sistematicamente para designar os cristãos como classe é ἅγιοι (hagioi), "santos". Não é uma honra reservada a uma elite espiritual: é a designação normal de qualquer pessoa que pertence a Cristo. A evidência textual Paulo abre praticamente todas as suas cartas dirigindo-se à comunidade inteira como "santos": "a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos" (Fil 1:1); "aos santos que estão em Éfeso" (Ef 1:1); "a todos os amados de Deus que estão em Roma, chamados a ser santos" (Rm 1:7). Em Atos, o próprio Pedro refere-se aos crentes de Lida simplesmente como "os santos" (At 9:32). O Apocalipse, tão caro às Testemunhas, fala repetidamente dos ἅγιοι como a totalidade do povo de Deus perseguido (Ap 13:7; 14:12; 17:6). Nenhum destes textos restringe a palavra "santos" a uma subcategoria. A expressão "Santos" é a designação bíblica de todos os cristãos, sem excepção. A linguagem da unção no NT: participação, não título de classe O NT usa vocabulário de unção em relação aos cristãos mas nunca como título de classe. E esta distinção é decisiva. 1 João 2:20 e 2:27 — o χρῖσμα (chrisma) "Mas vós tendes a unção (χρῖσμα) do Santo, e todos vós tendes conhecimento." – 1 João 2:20 "E quanto a vós, a unção (χρῖσμα) que dele recebestes permanece em vós, e não precisais de que alguém vos ensine…" – 1 João 2:27 João escreveu a uma comunidade cristã comum, não a uma elite. Os pronomes são no plural inclusivo: "vós todos". O substantivo χρῖσμα ("unção", "unguento") descreve algo que os crentes possuem, não um título que os define como classe. Nenhum versículo diz "alguns de vós têm o chrisma". Diz exactamente o oposto. 2 Coríntios 1:21, 22 — o verbo χρίω (chriō) "Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu (χρίσας) é Deus, que nos selou e nos deu as arras do Espírito nos nossos corações." (2 Cor 1:21, 22) Paulo inclui-se a si mesmo e à congregação inteira de Corinto nesta unção divina. A comunidade de Corinto era longe de ser uma elite espiritual. Paulo passou a maior parte da carta a corrigir divisões, imoralidade e desordem na forma como adoravam. E mesmo assim é dito deles: "Deus nos ungiu". O que o NT não diz O que o NT nunca faz é usar o plural χριστοί (christoi = "os ungidos") como designação de uma classe cristã. Este plural simplesmente não aparece aplicado a crentes em todo o NT. A linguagem de unção descreve uma experiência e uma relação com Deus, não uma categoria que divide a Igreja em dois grupos de cristãos. Cristo: o título exclusivo do Ungido O título Χριστός (Christos) — "O Ungido", "O Messias" — é, no NT, aplicado exclusivamente a Jesus. Ninguém mais é chamado "o Cristo". Textos como Atos 10:38 ("Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo") ou Lucas 4:18 (Jesus citando Isaías 61:1) referem-se à sua unção messiânica singular e intransferível. O próprio termo "cristão" (Χριστιανός) designa um seguidor d'O Ungido, não um "ungido" em sentido próprio. Quando os seguidores de Jesus foram chamados "cristãos" em Antioquia (Atos 11:26), o nome indicava pertença a Cristo, não uma participação num título que lhe é exclusivo. A invenção das Testemunhas de Jeová: a "classe dos ungidos" A doutrina das Testemunhas de Jeová divide os cristãos em duas classes: os 144.000 "ungidos" (com esperança celestial e direito de participar na Ceia do Senhor) e a "grande multidão" ou "outras ovelhas" (com esperança terrena). Esta divisão é apresentada como bíblica. Mas é uma construção humana sem precedente no texto do NT. O problema é duplo e opera em direções opostas:
São dois erros em direções opostas que se combinam para produzir uma doutrina que não tem base no vocabulário nem na teologia do NT. A designação bíblica real — "santos" — aplica-se a todos os cristãos e não implica nenhuma divisão de esperanças ou destinos. Isto até mesmo contraria aquilo que o apóstolo Paulo disse de forma clara e inequívoca em Efésios 4:4, 5: "Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo." O aviso profético de Jesus: os falsos cristos Há uma dimensão frequentemente ignorada neste debate. Jesus profetizou especificamente o surgimento de pessoas que reivindicariam a condição de ungidos/cristos: "Porque surgirão falsos cristos (ψευδόχριστοι) e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios, de modo a enganar, se possível, até os eleitos." (Mt 24:24; cf. Mc 13:22) O termo grego é ψευδόχριστοι (pseudochristoi), literalmente "falsos cristos", "falsos ungidos". Jesus não estava a referir-se apenas a indivíduos que afirmassem ser o Messias reencarnado. A palavra composta pseudo + christos abrange qualquer entidade, individual ou colectiva,que reivindique para si, de forma ilegítima, a condição de "ungido". A questão que o aviso coloca A questão que esta passagem levanta é perturbadora para a doutrina das TJ: quem tem autoridade para declarar que alguém é "ungido"? No sistema das Testemunhas de Jeová, é o próprio indivíduo que afirma sentir a "chamada celestial" — uma experiência interior subjetiva que a Organização reconhece sem possibilidade de verificação externa. O Corpo Governante, que se auto-designa como a "escravo fiel e prudente" ungido, exerce autoridade doutrinal e institucional com base, em última análise, nesta auto-reivindicação. O paradoxo é que as TJ alertam os seus membros contra os "falsos cristos" do mundo exterior, enquanto produzem internamente uma classe de 144.000 "ungidos" cuja base bíblica, como vimos, é inexistente. A ausência de critérios bíblicos de verificação O NT nunca estabelece um critério para identificar quem pertence a uma suposta "classe dos ungidos", porque essa classe nunca existiu como categoria bíblica. Os critérios que o NT usa para identificar os verdadeiros crentes são universais: a fé em Cristo, a obediência, o fruto do Espírito (Gálatas 5:22-23), o amor fraternal e estes aplicam-se a todos, não a uma sub-categoria de 144.000 "ungidos". Conclusão: a inversão de um texto O Novo Testamento é lexicalmente claro em dois pontos que a doutrina das Testemunhas de Jeová inverte sistematicamente:
A linguagem de unção (χρῖσμα, χρίω) existe no NT aplicada a todos os crentes, mas como descrição de uma experiência partilhada com o Espírito Santo, não como título de classe. O NT nunca usa o plural χριστοί para designar os cristãos. A "classe dos ungidos" é, em linguagem simples, uma construção humana, elaborada por J.F. Rutherford no século XX e codificada pelos sucessivos Corpos Governantes, sem qualquer equivalente no vocabulário nem na teologia do Novo Testamento. E Jesus avisou expressamente que surgiriam pseudochristoi: pessoas que reivindicariam, de forma ilegítima, a condição de "ungidos" como classe. "Todos vós tendes a unção do Santo." — 1 João 2:20 "Deus nos ungiu." — 2 Coríntios 1:21 A expressão "Santos" é a única designação de classe que o NT conhece para os cristãos. Apenas Jesus é o Cristo ou Ungido de Deus no Novo Testamento. António Madaleno
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